O cuidar da literatura: uma prática comparatista
Em 2003, Gayatri Chakravorty Spivak anunciava, num ensaio marcante (Death of a Discipline), a morte da Literatura Comparada enquanto disciplina literária tal como a conhecíamos e praticávamos. O título parecia definitivo. Porém, vários investigadores em literatura preferiram lê-lo como um manifesto a favor de uma renovação do método comparatista aplicado ao fenómeno literário.
Spivak denunciava no seu texto as contradições do comparatismo tradicional e ocidental, que a perspetiva globalizada (Damrosch, 2003), privilegiada há muito pela investigação em literatura, se propunha resolver e superar através de abordagens críticas centradas na importância renovada da tradução, da circulação e da cartografia do texto lido (Moretti, 2005), do policentrismo (Chakrabarty, 2000), e da tensão simbólica e histórica entre o centro e a periferia, mediante uma atenção à hibridez, à crioulização (Glissant, 1990) e à descolonização do cânone (Bhabha, 1994; Spivak, 1999).
Vinte anos passados, impõe-se reconhecer que, não apenas os Estudos Comparatistas resistem, como também se revelam uma arma disciplinar de resistência face às aporias da literatura-mundo e aos projetos culturais fundados na premissa global.
Cumpre sublinhar que o primeiro compromisso do comparatismo é, de facto, o cuidar da Literatura enquanto manifestação da complexidade do mundo. A Literatura Comparada assenta numa prática de cuidado da Literatura, sempre consciente da necessidade de abertura a novos desafios e orientações críticas.
Entretanto, o conceito de care impôs-se no pensamento contemporâneo (Tronto, 1993; Latour, 2006; Laugier, 2020; Fleury, 2019) como abordagem do mundo cuja expressão polissémica se destaca na investigação aplicada, nomeadamente em literatura (cuidado, tratamento, cura). Partindo de uma perspetiva alargada do conceito e da prática do care, que interroga o literário enquanto viragem ética, epistemológica e social, este colóquio pretende sublinhar o potencial do literário enquanto saber heurístico outro sobre o mundo na esfera pública, a sua forte propensão atualmente a retomar o compromisso social sob a forma de agentividade, bem como a sua capacidade de imaginar, ou mesmo de gerar, mundos por vir e em devir.
Com efeito, cuidado e prática do comparatismo articulam-se em torno da renovação das atenções suscitadas pela investigação em Literatura, enquanto afirmação da resistência desta disciplina que se quer cuidado nas suas duas aceções: atenção e exigência. Como afirma Frédérique Toudoire-Surlapierre (2022), «A questão é menos procurar definir, pela enésima vez, a literatura comparada do que interrogar porque é tão importante saber o que se faz quando se compara».
A Literatura Comparada ganha assim uma nova legitimidade teórica e heurística: não visa apenas o potencial diferencial do outro, mas evidencia o sentido inerente à prática comparatista, essencial à estabilidade identitária, conferindo a esta disciplina uma vocação epistémica e um impacto político que se lhe quis, por vezes, negar. Daí a sua afinidade com as dinâmicas do care.
Assim, a Associação Portuguesa de Literatura Comparada (APLC), em coorganização com o ILC da Universidade do Porto e com a Universidade dos Açores, tem o prazer de anunciar este congresso internacional, que terá lugar na Faculdade de Letras da Universidade do Porto, nos dias 15, 16 e 17 de julho de 2026, e para o qual lança este convite à apresentação de comunicações a todos os investigadores comparatistas que o cuidar da Literatura, enquanto prática comparatista, interpela, questiona, mobiliza ou inspira.
Eixos temáticos
1. Literatura Comparada na renovação da investigação e do ensino;
2. Literatura Comparada e ética do care;
3. Literatura Comparada e modalidades e expressões da agentividade;
4. Literatura Comparada na conceção de mundos por vir e em devir;
5. O cânone, a tradução e a leitura literária como resistência na prática comparatista;
6. Literatura Comparada e Humanidades Médicas;
7. Literatura Comparada e fundamentos antropológicos (nascer, crescer, transmitir, morrer);
8. Literatura Comparada e ecossistemas (Ecocrítica, Geocrítica, Geopoética, Humanidades Ambientais).
Aceitam-se igualmente propostas de painéis no âmbito dos eixos temáticos.
Formulário de Submissão de Painel:
– Nome do Responsável pelo Painel
– E-Mail
– Instituição
– Centro de Investigação
– Eixo Temático do Painel
– Título do Painel
– Participantes do Painel (máximo 3)
– Resumo até 500 Palavras
Línguas de trabalho: português, espanhol, francês, inglês
